Diagrama de Ishikawa (espinha de peixe): como achar a causa raiz de verdade

Por Darlei Cordeiro 7 min de leitura
Ilustração de um diagrama espinha de peixe com espinhas coloridas

O diagrama de Ishikawa (também chamado de espinha de peixe ou diagrama de causa e efeito) é uma ferramenta de análise que organiza, num desenho simples, todas as causas possíveis de um problema: o efeito fica na "cabeça" do peixe, e as causas se distribuem pelas "espinhas", agrupadas em seis categorias que começam com M: método, máquina, material, mão de obra, medição e meio ambiente. Criado por Kaoru Ishikawa no controle de qualidade japonês, ele existe pra vencer o vício universal das empresas diante de um problema: agarrar a primeira explicação que aparece e sair "consertando" o sintoma.

O valor do diagrama não está no desenho, está na disciplina que ele impõe: as seis espinhas obrigam o time a varrer territórios onde ninguém olharia. O refugo que "obviamente é culpa do operador novo" (mão de obra) revela, na varredura completa, um lote de matéria-prima fora de faixa (material) processado com o instrumento descalibrado (medição). Sem a espinha, o operador levava a bronca e o problema voltava mês que vem.

Os 6 Ms, com as perguntas que cada um dispara

MTerritórioPerguntas típicas
MétodoO jeito de fazerExiste padrão? É seguido? Mudou algo no procedimento?
MáquinaEquipamento e ferramentaManutenção em dia? Desgaste? Ajuste correto?
MaterialMatéria-prima e componentesLote novo? Fornecedor trocou? Especificação atendida?
Mão de obraPessoas e treinamentoTreinado no padrão? Turno novo? Sobrecarga?
MediçãoInstrumentos e critériosCalibrado? Critério de aceitação claro? Todos medem igual?
Meio ambienteCondições do entornoTemperatura, umidade, iluminação, bagunça interferem?

Uma nota honesta sobre a categoria "mão de obra": ela é a mais citada nas reuniões e a menos raiz de todas. Na esmagadora maioria dos casos, o erro humano é sintoma de um método frouxo, um padrão que não existe ou uma medição ambígua. Desconfie de toda investigação que termina em "falta de atenção": gente desatenta em processo à prova de erro não produz defeito. É o mesmo princípio do kaizen: o alvo é o processo, nunca a pessoa.

Ilustração de um time colando notas em um grande diagrama espinha de peixe

Um exemplo completo: o atraso de entrega recorrente

Problema na cabeça do peixe, com número: "23% das entregas atrasaram no trimestre". O time varre as espinhas: Método: prazo prometido pelo vendedor sem consultar a carga da fábrica; sequenciamento refeito a cada pedido urgente. Máquina: o gargalo (a dobradeira) parou duas vezes sem manutenção programada. Material: chapa de um fornecedor atrasou 3 vezes no período. Mão de obra: férias do único operador treinado na dobradeira. Medição: ninguém media atraso por causa, então cada área culpava a outra. Meio ambiente: expedição dividindo espaço com estoque, carregamento lento. Com a espinha cheia e os DADOS na mesa (quais pedidos, que datas, que causas), três causas concentravam quase tudo: promessa sem consulta à capacidade, gargalo sem preventiva, fornecedor problemático. Cada uma desceu pelos 5 porquês e virou ação com dono: régua de prazo integrada ao PCP, plano de manutenção da dobradeira, segundo fornecedor homologado. O atraso caiu pra 6% em dois trimestres. Nenhuma das três ações teria saído da explicação original da reunião, que era, claro, "culpa da produção".

O kit completo: Ishikawa + 5 porquês + Pareto

As três ferramentas clássicas da causa raiz trabalham em sequência: o Pareto escolhe QUAL problema atacar (80% da dor vem de 20% das causas: ataque as gordas), o Ishikawa abre o leque de causas possíveis do problema escolhido, e os 5 porquês descem à raiz de cada causa provável (por que a dobradeira parou? correia gasta. Por que gasta? nunca trocada. Por que nunca? não há plano. A raiz é "não há plano", não "correia"). O resultado alimenta um giro de PDCA: a causa vira mudança, a mudança vira medição, a medição confirma (ou não) e padroniza. É o motor de melhoria da gestão da qualidade inteiro, com três desenhos e zero software.

Ilustração de três ferramentas encaixadas em sequência como engrenagens

Os erros que anulam a ferramenta

Quatro clássicos: a espinha de opinião (montada sem nenhum dado; vira palpite bem formatado: leve números, fotos e registros pra reunião), a espinha de culpado (a investigação já começa sabendo a resposta e o desenho só decora a acusação), a espinha sem descida (o diagrama fica lindo na parede e nenhuma causa vira ação com dono e prazo) e a espinha solitária (montada por uma pessoa só no escritório; a ferramenta é de GRUPO, e o operador que convive com o problema enxerga espinhas que o gerente não imagina, o velho oitavo desperdício do lean: talento não ouvido). Diagrama bom termina feio de tanto post-it e bonito de resultado.

Primeira espinha desta semana: pegue o problema que mais se repetiu no último mês (refugo, atraso, reclamação), reúna 4 pessoas que convivem com ele (incluindo quem opera), desenhe o peixe num quadro e varra os 6 Ms com os dados que existirem. Uma hora de reunião. Eleja as 2 causas mais prováveis e desça os 5 porquês em cada. Você sai com ações que nenhuma reunião de "quem foi?" produziria.

E se o problema recorrente da sua empresa é comercial (orçamento que não chega, proposta que não responde), a espinha também funciona, e a primeira varredura eu faço de graça: a análise gratuita investiga em até 2 dias úteis as causas de o seu site não gerar pedidos, categoria por categoria, com as ações apontadas.

Perguntas frequentes

O que é o diagrama de Ishikawa, em uma frase?

É uma ferramenta visual de análise de causas: o problema fica na cabeça de um esqueleto de peixe, e as espinhas organizam as causas possíveis por categoria (os 6 Ms: método, máquina, material, mão de obra, medição e meio ambiente), permitindo investigar de forma completa em vez de chutar a primeira explicação.

O que são os 6 Ms do diagrama?

As seis famílias de causa que estruturam a investigação: Método (o jeito de fazer: procedimento, sequência, padrão), Máquina (equipamento, ferramenta, manutenção), Material (matéria-prima, componente, fornecedor), Mão de obra (treinamento, experiência, fadiga), Medição (instrumento, calibração, critério de aceitação) e Meio ambiente (temperatura, umidade, iluminação, organização). A graça é que elas forçam o time a olhar onde não olharia.

Qual a diferença entre Ishikawa e 5 porquês?

São complementares: o Ishikawa abre o leque (todas as causas possíveis, organizadas por categoria) e os 5 porquês descem fundo numa causa específica (perguntando "por quê" até a raiz tratável). O uso combinado é o clássico: monta-se a espinha de peixe em grupo, elegem-se as causas mais prováveis, e cada uma recebe uma descida de 5 porquês pra chegar na raiz.

Quando usar o diagrama de Ishikawa?

Quando um problema é recorrente ou relevante e a causa não é óbvia: refugo que voltou, atraso que se repete, reclamação em série, máquina que quebra toda semana. Pra problema pontual de causa evidente, é canhão pra mosca. E o pré-requisito que muda tudo: usar com DADOS na mesa (quando acontece, em que turno, com que material), porque espinha de peixe alimentada só de opinião produz palpite organizado.

Como sei se cheguei na causa raiz?

Dois testes práticos: o teste da recorrência (se eu eliminar essa causa, o problema para de voltar? Se só alivia, é sintoma) e o teste da ação (a causa aponta uma ação concreta e viável? "Falta de atenção" não passa: não se conserta atenção, se conserta o processo que depende dela: padrão visual, dispositivo à prova de erro, dupla checagem). Causa raiz de verdade termina em mudança de processo, não em pedido pra equipe "tomar mais cuidado".

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